Ilustração de racks em data center

Campinas deixou de ser apenas um ponto de passagem de fibra entre São Paulo e o interior. Em 2026, a região opera como ecossistema completo de infraestrutura digital: salas técnicas de hyperscalers, colocation de empresas nacionais, nós de CDN e laboratórios de edge computing ligados a universidades locais. A expansão em curso, porém, expõe gargalos que raramente aparecem em releases de imprensa — especialmente na interface entre energia contratada e demanda real por rack.

O que os números mostram

Estimativas consolidadas por consultorias do setor apontam mais de 400 MW de potência instalada ou em fase avançada de comissionamento na região metropolitana de Campinas. Esse volume inclui campus de Ascenty em Hortolândia, expansões da Elea em Vinhedo e novos módulos da ODATA distribuídos entre Sumaré e Americana. O crescimento ano a ano supera 18% desde 2022, ritmo que supera a média nacional e reflete a concentração de clientes enterprise no eixo São Paulo–Campinas.

A densidade de fibra ótica acompanha o movimento. Operadoras como V.tal, Cirion e unidades de telecomunicações regionais mantêm rotas redundantes com latência inferior a 2 ms para pontos de presença no centro de São Paulo. Para cargas sensíveis a latência — trading algorítmico, sincronização de bases transacionais — essa proximidade justifica prêmios de colocation que chegam a 15% acima de instalações no Nordeste.

Energia e mercado livre

A disponibilidade de contratação no mercado livre de energia é vantagem estrutural da região. Operadores de data center negociam PPAs (Power Purchase Agreements) de longo prazo com geradores eólicos e solares, buscando previsibilidade de custo em um cenário de tarifas de distribuição voláteis. Engenheiros de facility consultados pela Peta Brasil relatam que a transição de contratos cativos para o mercado livre reduziu custos médios entre 8% e 12% em instalações que migraram entre 2023 e 2025 — economia que financia, em parte, upgrades de resfriamento.

O desafio surge na demanda contratada versus picos reais. Racks equipados com GPUs para inferência podem consumir o dobro da potência nominal de servidores tradicionais. Distribuidoras como CPFL Paulista aplicam penalidades por ultrapassagem de demanda, e operadores que não recalibraram contratos enfrentam multas recorrentes. A solução adotada por alguns campus inclui bancos de capacitores, sistemas de armazenamento em baterias de curta duração e negociação de demanda contratada em blocos escalonáveis — mecanismos que adicionam complexidade operacional.

A expansão de metros quadrados não é o indicador mais relevante. O que define viabilidade econômica é a relação entre megawatts contratados, eficiência térmica e taxa de ocupação por watt — não por metro quadrado.

Resfriamento e densidade

Instalações projetadas há cinco anos para 8 a 10 kW por rack agora recebem cargas de 20 kW ou mais. O resfriamento por ar preciso (hot aisle / cold aisle) atinge limites físicos; operadores testam resfriamento líquido direto ao chip (DLC) e imersão em fluidos dielétricos em laboratórios isolados. A adoção em escala comercial ainda é marginal no Brasil, mas pilotos em Campinas antecipam o que consultorias internacionais projetam como padrão até 2028 para workloads de IA.

A gestão térmica impacta diretamente o PUE. Instalações maduras na região operam com PUE entre 1,35 e 1,55 — números competitivos globalmente, mas sob pressão ascendente conforme a densidade por rack cresce. Equipes de engenharia monitoram temperatura de retorno de ar e vazão de água gelada em intervalos de segundos, com alertas automatizados integrados a sistemas de orquestração de carga.

Perspectiva para o segundo semestre

Anúncios de novos módulos seguem em pipeline, com foco em clientes de setores regulados que exigem certificações Tier III ou equivalentes. A concorrência por mão de obra qualificada — eletricistas industriais, técnicos de refrigeração, engenheiros de redes — aquece o mercado local e eleva custos de implantação.

Para quem acompanha infraestrutura digital no Brasil, Campinas permanece o termômetro: o que acontece aqui em termos de energia, fibra e densidade de rack tende a se replicar em hubs emergentes como Fortaleza e Curitiba nos próximos anos. A Peta Brasil continuará monitorando contratos de energia, expansões anunciadas e indicadores operacionais que raramente aparecem em comunicados corporativos, mas definem a sustentabilidade do crescimento.